Sunday, October 16, 2005

Raízes (quinto e último capítulo)

Mesmo depois do término entre nós, continuamo-nos a corresponder. As cartas iam e vinham assiduamente. Todas as semanas, metia a chave à caixa do correio, e lá estava a carta de Joana, sempre de papel cheiroso, que eu aspirava sofregamente, numa tentativa de reconforto. Subia as escadas apressadamente, desenvelopava-a e lia-a avidamente. Depois de a ler uma série de vezes, tentando descobrir uma nesga de esperança nas entrelinhas, guardava-a junto às demais.
Os anos voaram depressa, e fui olvidando o amor da minha juventude. Comecei a andar demasiado ocupado e mal tinha tempo para pensar nela. O tempo sempre cura estas coisas. Sempre foi um prodigioso curandeiro de maleitas afectivas. Entretanto, tinha-me enamorado de novo. Desta vez, por uma rapariga da minha cidade e com a qual me casei na Igreja do Santo Casamenteiro e Padroeiro de Lisboa.
Na última carta que Joana me escreveu, esta já não tinha o perfume de outrora, dizia-me que casara, que esperava o seu primogénito, que arranjara um emprego que a realizava, e que, coincidência das coincidências, o seu marido também gostava de jazz e tocava como eu, mas que o seu instrumento era saxofone. Fiquei feliz por ela. A sério que fiquei.
Intriga-me deveras, porque é que decorridos tantos anos me estou a lembrar deste passado remoto. Talvez porque tenho em cada canto da cidade uma recordação com Joana, talvez porque estou aqui no cimo do Chiado sentado ao lado do senhor do chapéu, do seu ídolo. No fundo, ela tinha toda a razão quando dizia que as distâncias encurtavam as relações e que lhe era difícil desligar-se das suas raízes. E passada esta distância de tempo, corroboro os seus argumentos. Tenho a certeza de que a decisão que tomou me custou a aceitar na altura, mas hoje sei que foi a melhor para ambos. Agora compreendo-te Joana. Porque eu, tal como tu, também era incapaz de largar as minhas raízes. A minha eterna Lisboa.


1ºPrémio de Conto Livre
XXVI Jogos Florais do Algarve


Premiado no DN Jovem de
05/05/2006

9 Comments:

At 6:57 PM, Anonymous Anonymous said...

Oh Pedro mas que história tão ternurenta!A sério que a acho...é apenas uma história de amor e como tal sempre com uns laivos de ternura.A vida é assim,feita de amores e desamores,há que saber vivê-la e aproveitar todos os minutos e quem não tem uma história de amor para contar?A memória é um manancial e é bom muitas vezes recordar o que nos fez feliz.Gostei do texto na íntegra e por isso os meus parabéns.A coisa mais curiosa foi o nome da cadelinha e também o nome do protagonista(Luna e Miguel)...Agora acho que é a minha memória a funcionar,esses nomes dizem-me algo mas certamente estou a sonhar...Um abraço JOANA(Aveiro)

 
At 8:16 AM, Anonymous Anonymous said...

Muito bom...continua a escrever assim filho que um dia ainda ganhas um lugarzinho de bronze ao meu lado!


Sr. Pessoa

 
At 8:17 AM, Anonymous Anonymous said...

Bauauau bau bau
bau bauauau au au


Ass: Luna

 
At 4:52 PM, Blogger Pedro Ventura said...

:-)

 
At 3:33 PM, Blogger Eva Luna said...

Estou muito contente pela qualidade do teu texto e pela riqueza das palavras que fazem transpirar as emoções. Também estou contente por perceber que te inspiramos e que conseguimos ver nas tuas doces palavras um bocadinho bonito de todos nós. Beijinhos meu amigo, sei que vais longe...

 
At 8:03 PM, Blogger Caganita said...

Eheh
Bela estória de amor.
Relamente Miguel e Luna também me fazem lembrar qualquer coisa.
Continue Sr. Ventura!

 
At 5:34 PM, Blogger Pedro Ventura said...

Acabei de saber que este texto foi admitido no concurso Lisboa à Letra da C.M. de Lisboa. Vamos ver se realmente esta história de amor tem a sorte de colher os seus frutos.

Abraços

 
At 12:56 PM, Blogger Caganita said...

Muitos parabéns!
E boa sorte!

 
At 10:35 AM, Anonymous Anonymous said...

Gostei de ler esta história de amor. Os sentimentos são descitos de tal forma k nos envolvem.Continua a escrever assim e um dia certamente serás reconhecido.

 

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