Saturday, October 15, 2005

Raízes (segundo capítulo)

O tempo foi passando. No terceiro ano universitário, Joana e eu éramos unos. Não partilhávamos outras amizades, não por egoísmo, mas simplesmente por não termos necessidade, porque nos complementávamos. Para onde ela fosse eu ia atrás, e o mesmo acontecia com ela. Após as aulas, deambulávamos juntos pelas ruelas íngremes e becos dos bairros antigos – Bairro Alto, Mouraria, Alfama… Estudávamos as gentes alfacinhas, entrávamos nas tasquinhas para bebericarmos uma ginjinha, apreciávamos as fachadas e a sua arquitectura, com as suas clarabóias e varandas estreitas pejadas de vasos com flores e roupa estendida, sorriamos aos catraios que brincavam, perdíamos horas nos alfarrabistas. Nunca nos faltavam afazeres durante essas tardes. Íamos ao cinema, ao Saldanha e ao King, subíamos e descíamos colinas, no eléctrico 28, dos Prazeres à Graça e eu, nesses percursos, vestia o papel de guia turístico apontando-lhe os pontos interessantes por onde passávamos (a Sé Catedral, o palácio de São Bento, a Basílica da Estrela, etc.). Visitávamos museus e algumas igrejas mais afamadas, contemplávamos os céus e os astros no Planetário, sítio que já não visitava desde a infância, fruíamos da zona ribeirinha, e, depois de jantarmos num qualquer restaurante típico e recôndito, em que o cardápio exposto na vidraça nos fizesse crescer água na boca, ainda nos sobejavam forças para nos embrenharmos na noite. Sempre juntos.
- Lisboa é linda, à noite. Tem tanta luz e vida. – dizia-me por vezes.
- Lisboa é sempre linda, de dia ou de noite – retorquia-lhe. – Que gostas mais dela?
- Aquilo que não conheço. Há sempre um espanto ao virar de cada esquina. Tens de me mostrar uma casa de fados. Tenho curiosidade.
- Claro. Assim que houver oportunidade levo-te ao Dragão de Alfama, vais ver como se canta o fado vadio.
Sentíamo-nos tão apegados e dependentes, que não conseguíamos ir para as aulas um sem o outro. E nos fins-de-semana que ela ia matar as saudades paternas, eu mal saía de casa. Agarrava-me ao contrabaixo e às partituras de jazz que tinha, de revistas da especialidade que comprava numa loja da Avenida da Liberdade, e dedilhava durante horas todo o meu ser, até os dedos ficarem em carne viva. Talvez fossem saudades - eu sabia que eram. E ao domingo, ao cair da tarde, lá estava eu na gare de Santa Apolónia para lhe oferecer a mão à saída do comboio, para a ajudar a levar as malas até ao táxi, que serpenteava pelo trânsito até à Graça, ao som de Quim Barreiros, Emanuel ou o hino do Benfica.
- São estas pequenas coisas que caracterizam Lisboa e as suas gentes – dizia-me por vezes, referenciando os homens da praça, que quase sempre laboram ao ritmo de melodias populares.
Tinham toda a razão de ser, estas palavras de Joana. Por vezes quem vive em Lisboa, e não se abstrai do seu ritmo apressado, acaba por se esquecer das peculiaridades da cidade, que a tornam aquilo que ela é. Sempre daremos mais valor àquilo que não temos. Não foi a saudade que fez cantar o fado? Digo isto porque, todos os anos, quando vou de férias para fora de Lisboa, passada a primeira semana, acontece um fenómeno misterioso dentro de mim: fico com a necessidade de absorver o Tejo e de avistar os cacilheiros no seu movimento pendular entre as duas margens. Enfim, explique-me este fenómeno quem tiver apetência para tal.
Por incrível que pareça, eu e Joana sempre fomos adiando a nossa paixão. Talvez por padecermos do mesmo mal, por sermos ambos pessoas tímidas. Sempre nos fizemos crer, enganando-nos até ao limite, que o que coabitava entre nós era somente uma forte amizade, e nada mais do que isso. Até que chegou o dia, ou melhor, a noite em que nos foi impossível ignorar o que havia de mais puro e sincero dentro de nós. Numa noite na esplanada do Adamastor, que nos mirava com aqueles olhos profundos - dá-me a sensação que em Lisboa estamos constantemente a ser observados por figuras paradas nos seus pedestais -, entre goladas de cerveja gelada e tremoços, com a lua a assemelhar-se a um holofote luzidio, que se reflectia nas águas murmurantes e silentes do Tejo que corria descansadamente para a sua foz, um cenário que não poderia ser mais propício - para além do rio, avistávamos o imponente Cristo-Rei com os seus longos braços abertos, a ponte com os seus fiozinhos de luzes - para eu desatar o nó que tinha na garganta e me libertar do aperto que trazia no peito.
- Joana?! – disse-lhe, interrompendo-a das animados rememorações da sua infância em Aveiro.
- Sim?!
- Há muito que ando para te dizer…
- Sim?! Diz, diz… – interrompeu-me sofregamente, como se esperasse que o primeiro passo de afoiteza coubesse a mim.
Respirei a noite enchendo o peito de ar, e prossegui.
- Acho que a nossa amizade poderia dar um passo mais adiante…
- É este o passo que ansiavas?
Num ímpeto, puxa-me pelo pescoço e, sem temor, resoluta, prova-me os lábios, uma e outra vez. O meu ritmo cardíaco galopava desenfreadamente. Foi assim, nesse cenário encantador, que nos osculámos pela primeira vez.
Se ao cimo do Chiado foi o Sr. Pessoa que testemunhou e apadrinhou o encetar de uma bela amizade, ali, num dos mais aprazíveis miradouros de Lisboa, como testemunhas da consumação, da fortificação dessa amizade, ficaram o gigante Adamastor, o Tejo, a noite, a lua.
Dali, gaudiosos como crianças, fugimos para a meca da vida nocturna alfacinha, para a roda-viva do Bairro Alto. Precisávamos de celebrar.

3 Comments:

At 11:03 PM, Anonymous Anonymous said...

E foram felizes para sempre(como nas histórias da nossa infância...)?O que importa realmente é o momento...que seja eterno enquanto dura,diria o poeta.Gostei do texto que tal como havia dito pontuou pela ternura e simplicidade.Parabéns,está muito bem redigido e numa linguagem bastante acessível.Um abraço

 
At 7:52 PM, Blogger Caganita said...

Olá
Espero que aqui venha ver o meu comentário.
Li e gostei que até me fez aquele arrepiozinho na barriga.
Escreve muito bem, espero que tenha mesmo acontecido esta estória, porque merece ser verdadeira.

 
At 5:39 PM, Blogger Pedro Ventura said...

Sim claro que venho sempre ver os comentários.

 

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