Raízes (segundo capítulo)
O tempo foi passando. No terceiro ano universitário, Joana e eu éramos unos. Não partilhávamos outras amizades, não por egoísmo, mas simplesmente por não termos necessidade, porque nos complementávamos. Para onde ela fosse eu ia atrás, e o mesmo acontecia com ela. Após as aulas, deambulávamos juntos pelas ruelas íngremes e becos dos bairros antigos – Bairro Alto, Mouraria, Alfama… Estudávamos as gentes alfacinhas, entrávamos nas tasquinhas para bebericarmos uma ginjinha, apreciávamos as fachadas e a sua arquitectura, com as suas clarabóias e varandas estreitas pejadas de vasos com flores e roupa estendida, sorriamos aos catraios que brincavam, perdíamos horas nos alfarrabistas. Nunca nos faltavam afazeres durante essas tardes. Íamos ao cinema, ao Saldanha e ao King, subíamos e descíamos colinas, no eléctrico 28, dos Prazeres à Graça e eu, nesses percursos, vestia o papel de guia turístico apontando-lhe os pontos interessantes por onde passávamos (a Sé Catedral, o palácio de São Bento, a Basílica da Estrela, etc.). Visitávamos museus e algumas igrejas mais afamadas, contemplávamos os céus e os astros no Planetário, sítio que já não visitava desde a infância, fruíamos da zona ribeirinha, e, depois de jantarmos num qualquer restaurante típico e recôndito, em que o cardápio exposto na vidraça nos fizesse crescer água na boca, ainda nos sobejavam forças para nos embrenharmos na noite. Sempre juntos.- Lisboa é linda, à noite. Tem tanta luz e vida. – dizia-me por vezes.
- Lisboa é sempre linda, de dia ou de noite – retorquia-lhe. – Que gostas mais dela?
- Aquilo que não conheço. Há sempre um espanto ao virar de cada esquina. Tens de me mostrar uma casa de fados. Tenho curiosidade.
- Claro. Assim que houver oportunidade levo-te ao Dragão de Alfama, vais ver como se canta o fado vadio.
Sentíamo-nos tão apegados e dependentes, que não conseguíamos ir para as aulas um sem o outro. E nos fins-de-semana que ela ia matar as saudades paternas, eu mal saía de casa. Agarrava-me ao contrabaixo e às partituras de jazz que tinha, de revistas da especialidade que comprava numa loja da Avenida da Liberdade, e dedilhava durante horas todo o meu ser, até os dedos ficarem em carne viva. Talvez fossem saudades - eu sabia que eram. E ao domingo, ao cair da tarde, lá estava eu na gare de Santa Apolónia para lhe oferecer a mão à saída do comboio, para a ajudar a levar as malas até ao táxi, que serpenteava pelo trânsito até à Graça, ao som de Quim Barreiros, Emanuel ou o hino do Benfica.
- São estas pequenas coisas que caracterizam Lisboa e as suas gentes – dizia-me por vezes, referenciando os homens da praça, que quase sempre laboram ao ritmo de melodias populares.
Tinham toda a razão de ser, estas palavras de Joana. Por vezes quem vive em Lisboa, e não se abstrai do seu ritmo apressado, acaba por se esquecer das peculiaridades da cidade, que a tornam aquilo que ela é. Sempre daremos mais valor àquilo que não temos. Não foi a saudade que fez cantar o fado? Digo isto porque, todos os anos, quando vou de férias para fora de Lisboa, passada a primeira semana, acontece um fenómeno misterioso dentro de mim: fico com a necessidade de absorver o Tejo e de avistar os cacilheiros no seu movimento pendular entre as duas margens. Enfim, explique-me este fenómeno quem tiver apetência para tal.
Por incrível que pareça, eu e Joana sempre fomos adiando a nossa paixão. Talvez por padecermos do mesmo mal, por sermos ambos pessoas tímidas. Sempre nos fizemos crer, enganando-nos até ao limite, que o que coabitava entre nós era somente uma forte amizade, e nada mais do que isso. Até que chegou o dia, ou melhor, a noite em que nos foi impossível ignorar o que havia de mais puro e sincero dentro de nós. Numa noite na esplanada do Adamastor, que nos mirava com aqueles olhos profundos - dá-me a sensação que em Lisboa estamos constantemente a ser observados por figuras paradas nos seus pedestais -, entre goladas de cerveja gelada e tremoços, com a lua a assemelhar-se a um holofote luzidio, que se reflectia nas águas murmurantes e silentes do Tejo que corria descansadamente para a sua foz, um cenário que não poderia ser mais propício - para além do rio, avistávamos o imponente Cristo-Rei com os seus longos braços abertos, a ponte com os seus fiozinhos de luzes - para eu desatar o nó que tinha na garganta e me libertar do aperto que trazia no peito.
- Joana?! – disse-lhe, interrompendo-a das animados rememorações da sua infância em Aveiro.
- Sim?!
- Há muito que ando para te dizer…
- Sim?! Diz, diz… – interrompeu-me sofregamente, como se esperasse que o primeiro passo de afoiteza coubesse a mim.
Respirei a noite enchendo o peito de ar, e prossegui.
- Acho que a nossa amizade poderia dar um passo mais adiante…
- É este o passo que ansiavas?
Num ímpeto, puxa-me pelo pescoço e, sem temor, resoluta, prova-me os lábios, uma e outra vez. O meu ritmo cardíaco galopava desenfreadamente. Foi assim, nesse cenário encantador, que nos osculámos pela primeira vez.
Se ao cimo do Chiado foi o Sr. Pessoa que testemunhou e apadrinhou o encetar de uma bela amizade, ali, num dos mais aprazíveis miradouros de Lisboa, como testemunhas da consumação, da fortificação dessa amizade, ficaram o gigante Adamastor, o Tejo, a noite, a lua.
Dali, gaudiosos como crianças, fugimos para a meca da vida nocturna alfacinha, para a roda-viva do Bairro Alto. Precisávamos de celebrar.


3 Comments:
E foram felizes para sempre(como nas histórias da nossa infância...)?O que importa realmente é o momento...que seja eterno enquanto dura,diria o poeta.Gostei do texto que tal como havia dito pontuou pela ternura e simplicidade.Parabéns,está muito bem redigido e numa linguagem bastante acessível.Um abraço
Olá
Espero que aqui venha ver o meu comentário.
Li e gostei que até me fez aquele arrepiozinho na barriga.
Escreve muito bem, espero que tenha mesmo acontecido esta estória, porque merece ser verdadeira.
Sim claro que venho sempre ver os comentários.
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