Friday, September 16, 2005

Quedas (uma história real)

Ao findar do dia, depois de exercer a sua profissão de ladrilhador, José Veiga tinha como ponto de paragem obrigatório a taberna junto à sua habitação para dividir uma partida de sueca ou de dominó corrido com os amigos. Meio mercearia meio casa de pasto, de tudo se vendia naquele estabelecimento. Desde carvão, gás e petróleo, panelas, presuntos e enchidos rodeados de insectos voláteis, várias castas de queijos, dos que cheiravam mal aos que cheiravam pior, funis, aguardente à socapa e outras tantas coisas. E tudo também servia como decoração. Calendários obsoletos com mulheres semi-nuas ou por completo, posters amarelados da idade com as mais variadas equipes de futebol, cornos de cabra pendurados no tecto, notas fora de circulação, retratos antigos a preto e branco de quem deixou o espaço para herdar e até um periquito engaiolado. Por vezes o inofensivo animal sofria incessantes bombardeamentos de tremoços, de alguém que não conseguia controlar a embriaguez.
José Veiga não tinha por hábito exceder-se no álcool mas por vezes tragava um ou dois copos de três de uma só golada, coisa que nem por isso o afectava.
As cartas ou os rectângulos do dominó quedavam-se sobre a gasta e pesadona mesa de madeira com violência. Por quererem falar todos em simultâneo os diálogos distorciam-se, tornando-se impercebíveis. Posto esses momentos de ócio pós-laboral, José Veiga tornava a casa. Quase já não jantava pois o seu estômago ia saciado com as entremeadas e os couratos que se banhavam nas brasas do fogareiro à porta do estabelecimento.
Num desses dias, que se tornavam rotineiros, depois de uma dessas jogatanas, e sem dar conta, José Veiga alagou-se um pouco demais no álcool ordinário, e, enquanto esperava por uma sandes de entremeada na rua, teve uma discussão mais azeda, como é comum nesses locais, com um dos seus comparsas de mesa, esse mesmo que o empurrou. Fraco de pernas por culpa dos copitos a mais, caiu e estatelou-se no chão, batendo assim com a cabeça no passeio. Uma pequena queda que jamais se pensava ter os efeitos que teve. José Veiga, homem pacífico, de poucas brigas, não retaliou à ofensiva. Aturdido, cambaleou até à sua casa, com uma pequena escoriação na cabeça.
Na verdade não passara de uma mera discussão de quem não sabe beber, mas o pior sucedeu depois. Durante a noite José Veiga encetou a ter vómitos e tonturas, mas não por culpa do álcool que há horas tinha ingerido. Assustado e achando tudo aquilo anormal, a mulher chamou uma ambulância que o encaminhou até ao hospital mais próximo. Depois de fazer alguns exames (TAC, Raio-x, análises) o diagnóstico era deveras preocupante.
- O seu marido teve um derrame cerebral gravíssimo e vai ter de ser operado de urgência – informou o médico à senhora Veiga, toda ela feita em lágrimas, destroçada e pouco habituada àqueles cenários hospitalares.
Nessa mesma noite José Veiga foi intervencionado cirurgicamente, nessa mesma noite a vida daquela família se transfigurou de uma vida pacata a uma vida sofredora.
No espaço de seis meses José Veiga perdeu o discernimento, coordenação motora, ficou irreconhecível, enfermo. Porque a sua esposa tinha os filhos para criar e visto o dinheiro não cair do céu, custosamente não pôde deixar de trabalhar.
Decorridos tantos meses em hospitais e blocos operatórios, José Veiga hoje encontra-se numa casa da misericórdia, à mercê da paciência de alguém. É caso para dizer: pequenas quedas, grandes males.

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