Sunday, October 16, 2005

Raízes (quarto capítulo)

Entretanto Joana acabou o curso com sucesso. A sua estada em Lisboa estava a terminar.
Tínhamos uma semana para matar saudades, antes que ela tornasse à cidade que dizem ser a Veneza portuguesa, onde uns pais saudosos reclamavam a sua filha para lhe darem as felicitações, depois dos anos de esforço e dedicação. O deles, que a abonaram enquanto estudante, sabe-se lá com que dificuldades e privações, e o dela, que conseguiu levar a bom porto as suas tarefas estudantis, as suas convicções.
Subíamos o elevador de Santa Justa, contemplávamos a vista privilegiada, a sul sempre o Tejo, e desembocávamos no Largo do Carmo, onde um amontoado de varões reformados se reuniam à volta de uma mesa, a partilhar uma sueca ou um dominó, esquecidos do passado da praça e das movimentações militares de 74 que, porventura, terão sido protagonistas. O Guarda-republicano mantinha-se imóvel na sua sentinela, tal como as ruínas do convento. Nessa tarde, numa esplanada (procurávamos sempre boas esplanadas) dessa recordável praça, depois de termos passado tempos e tempos a conversar sobre a importância daquele lugar para o nosso povo, onde um brasão se confunde com a calçada com a inscrição “A Salgueiro Maia, lembrando o 25 de Abril de 1974 – Homenagem da cidade de Lisboa”, inoportunamente perguntei-lhe.
- E agora nós? Como vai ser?
- Vamos ter de viver com a distância que nos separa – disse-me.
- Achas que o nosso amor vai resistir a essa distância?
- Apenas estamos separados por duas horas de comboio. Basta querermos. O futuro arranjar-nos-á uma solução à altura dos nossos desejos.
- E Lisboa? Não ponderaste ficar por cá? Sempre temos a minha casa, onde cabemos bem os dois – insisti.
- Acho que não, pelo menos por agora. Lisboa é uma cidade maravilhosa, cativante e inspiradora, não falta nada por aqui, mas é lá que tenho tudo, os amigos, a família… E a minha Luna, tenho tantas saudades da minha cadelita.
Eu até compreendia Joana, mas custava-me aceitar essa sua ideia. Todavia, sempre vivi na esperança que ela virasse as ideias e ficasse por cá.
Não tardou o dia em que lhe fui dizer adeus à estação de Santa Apolónia. A lagarta de ferro partiu carril fora e eu fiquei ali quedo e absorto. Confesso que não foi fácil e que me humedeceram os olhos. “E agora, como vai ser? Ela mais alguma vez virá?”, pensei.
A resposta tive-a duas semanas mais tarde, quando dei comigo naquele mesmo lugar, a contar os minutos para a sua chegada, para lhe oferecer a mão à saída do comboio, para a ajudar a levar as malas até ao táxi, que serpenteava pelo trânsito, agora até ao Campo Mártires da Pátria, ao som de Quim Barreiros, Emanuel ou o hino do Benfica.
Durante quase dois anos, ela vinha cá uma ou duas vezes por mês, conforme podia. Eu nunca cheguei a ir lá, porque não teria onde dormir. Os seus pais, com certeza não iriam dar guarida ao namorado da sua única filha. E nesses interregnos, escrevíamo-nos e falávamos ao telefone durante horas a fio. Aparentemente, tudo parecia estar no bom caminho. Até que eu insistia:
- E Lisboa? E Lisboa? Não pensas em te mudar para cá, para ficarmos juntos?
Acho que foi essa minha perseverança que fez com que as suas vindas a Lisboa fossem cada vez mais espaçadas. Talvez se assustasse com a eventualidade de um passo mais firme. Pressentia que, paulatinamente, o nosso elo de ligação se estava a desconjuntar. Que o nosso amor se estava a desvanecer com a distância. E foi por palavras redigidas, talvez por Joana não ter tido a bravura de me dizer tais palavras num frente a frente, olhos nos olhos, que fria e inevitavelmente, tudo terminou.


Olá Miguel!

Gosto muito de ti. Juro que gosto. Sem dúvida que passámos momentos únicos nessa linda Lisboa, que não é minha. Mas é aqui que eu pertenço e jamais teria coragem de sair daqui de uma forma definitiva. Os laços que tenho por aqui são demasiado fortes. Eu sei que tu acabarás por me compreender. Por isso, acho que chegou o tempo de não adiarmos mais o que é inevitável. É tempo de procurarmos o nosso destino, cada um na sua cidade. É tempo de sermos felizes e de guardarmos os bons momentos no coração. Jamais te esquecerei, acredita. Jamais esquecerei o quanto fui feliz em Lisboa, contigo.

Com muitas saudades
Um beijo
Joana

PS: dá um abraço ao Sr. Pessoa por mim.

2 Comments:

At 7:59 PM, Blogger Caganita said...

Ok, não é o Pedro mas sim o Miguel, o protagonista.
Fico com pena.
Devia ter lido de cima para baixo para evitar os equivocos que fiz.

 
At 5:37 PM, Blogger Pedro Ventura said...

lol

 

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