Raízes (terceiro capítulo)
Eu e Joana éramos felizes. Tínhamos uma relação afortunada em que não havia espaço para arrufos e indelicadezas. Éramos parecidos e tínhamos muitos gostos em comum e jamais deixámos aquietar as batucadas dos nossos corações, do nosso amor. Todavia, o tempo e a idade foram passando, e era altura de começar a perspectivar um futuro próximo. Joana estava a findar a sua etapa de estudante e já pensava no mercado de trabalho. A mim, tinham-se aberto duas janelas importantes e que contribuíram, de certa forma, não de imediato mas sim mais tarde, na viragem da nossa relação. A primeira é que tinha deixado o ninho dos meus pais, na Estrela, e tinha alugado um T2 no Campo Mártires da Pátria, de onde vislumbrava, da minha janela ao acordar, a estátua de Sousa Martins, e as constantes manifestações de devoção ao doutor milagreiro. Morar sozinho tinha sido um capítulo vivencial importante para mim. E a segunda, é que conseguira ingressar no Hot Club, um sonho que eu nunca desprezei, muito por culpa das rodelas negras de vinil de Chet Baker e Miles Davis, que giravam na aparelhagem obsoleta do meu pai. Tinha uma colecção digna, o meu pai. Durante anos, aos sábados, madrugou e rumou à Feira da Ladra em busca de raridades. Eram escassas as vezes que vinha de mãos a abanar. Eu era miúdo, mas recordo-me como se fosse hoje. Ele entrava em casa com o vinil debaixo do braço e corria logo para a aparelhagem. Vinha sempre tão contente, que parecia ter-lhe saído a taluda. Limpava o grande achado com a escova própria para o efeito, e moldava-se no cadeirão a deleitar-se com o som que saía das colunas. Eu ficava de joelhos na carpete, com os meus olhos de menino postos nele, a tentar assimilar aqueles devaneios musicais, que para mim, na altura, soavam estranhamente aos ouvidos. Bons tempos aqueles, que passei na Estrela.Mas também foram bons os tempos que passei na minha casa alugada, sozinho com a Joana. A sua tia, sendo uma mulher dada a liberdades, de quando em quando, vendava os olhos e deixava-a dormir lá em casa. Nesses tempos, as visitas de Joana à casa de seus pais eram menos regulares. Havia sempre a escusa de que tinha de estudar. Uma pessoa quando ama, arranja sempre uma justificação para dormir no mesmo leito com o amado. E era bom acordar ao lado de Joana. Era bom sentir-lhe a respiração de noite, enquanto dormia, e o calor do seu corpo, colado ao meu, depois de saciarmos as nossas vontades.
Certa noite, durante um jantar surpresa que lhe preparei com devoção, onde nem a chama apaziguadora de um par de velas faltava, perguntei-lhe:
- Já pensaste o que vais fazer depois de acabares o curso? Já não falta muito…
- Pois é meu amor, está quase. Ainda não ponderei bem sobre o assunto. Tenho me aconselhar com o meu travesseiro. Mas talvez regresse a Aveiro e lá tentarei arranjar trabalho. É lá que estão as minhas raízes. – replicou-me.
Foi nessa altura, entre momentos de pura felicidade, que começámos a questionar o destino da nossa relação. E foi a partir desse dia, que começámos a viver o nosso amor com um amargo sabor a despedida.


1 Comments:
Bem, já começo a ficar nervosa.
Coincidência ou não, também me inscrevi no Hot Club, mas para voz, mas desisti porque trabalhar para ganhar dinheiro e pagar conta, ou dá para pagar tudo ou não dá para pagar nada.
Mas tenho um grande amigo que lá andou e em contrabaixo também.
Coincidências...
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