Sunday, March 13, 2005

Os três oitentas

Quatro mulheres trajadas a preceito conversavam sentadas numa esplanada da cidade, onde a sombra das exuberantes árvores as protegiam do entusiasmo com que o sol se mostrava nessa tarde. Aparentemente, rondavam os quarenta anos de idade e alimentavam despreocupações em público que as marterizavam na solidão. Entre goladas de chá fresco, toda a conversa girava em torno dos homens. Todas divorciadas, procuravam-se manter unidas numa espécie de teia para que, quando uma resvalasse em maus momentos, em quartos escuros e comprimidos, contrabalança-se com o pequeno peso de bons momentos das outras, assim se mantendo num equilíbrio mais ou menos lúcido. No entanto, por detrás da pele daquilo que resguardavam, reinava espirituosidade, se bem que um tanto falsa.
- Precisava de um homem de vinte e poucos anos, vigoroso e de olhos verdes, que me levasse ao limite do êxtase... - profere uma delas entre risadas.
- Não acham que aquele meu amigo, o Jorge, é o máximo? - indaga uma outra.
- Por detrás daquele cavalheirismo, e até um pouco ar de sonso, muitas surpresas se devem esconder... - prossegue a primeira. - Ele até pareçe que arrasta a asa para cima de ti, e tu fazes ouvidos de marcador...
Uma delas, a que tinha ar de ser mais romântica, exprime em palavras: - O meu próximo homem tem de me levar o pequeno-almoço à cama, e acordar-me com o perfume de uma rosa... claro que antes do pequeno-almoço!... - faz uma respiração sôfrega, simulando aquilo que se entendeu, e refresca-se passando o copo gelado do chá pelo pescoço abaixo.
- Um homem tem de viajar muito e tem de ter uma choruda conta bancária... - diz a que se pronunciara menos até então - ou então, o ideal seria um homem com três oitentas!...
Todas as outras ficaram com um expressão interrogativa, esperando que a amiga lhes explicasse que casta de homem era aquele. Esboçando um pequeno sorriso, a que deixara o suspense no ar, responde: - O homem dos três oitentas é um homem de oitenta anos, com oitenta mil contos e com oitenta dias de vida!... - o sorriso acentua-se e muta-se em gargalhada, não só para esta mas para todas as outras.
Para o homem que tinha, impropositadamente, o sentido auditivo atento naquela direcção, toda aquela cavaqueira não passaria de meras futilidades, se não fosse aprender um pouco mais sobre as mulheres. Este dá o último gole do seu chá fresco, erige-se e segue avenida acima, passeando pedestremente, os seus oitenta anos, os seus oitenta mil contos e os seus, quiçá, oitenta dias de vida.

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