Wednesday, December 08, 2004

Morte premeditada

Nem todos fruiam do previlégio de ter um panorama daqueles. Daquele sétimo andar envidraçado comtemplava-se grande parte da cidade, a melhor parte dela. Lá em baixo o rio, que se derramava entre as duas margens, era um espelho silente que carimbava nas águas a lua , lá de cima, alva como uma pérola. Os barcos daquela eminência e distância pareciam frágeis cascas de nozes, ou insectos mortos simplesmente a boiarem à mercê da corrente. " Sim, tem-se uma previligiada vista daqui ", pensava João, quase colado à parede de vidro que permitia todo aquele deslumbre. Cogitava e bebia whisky em tímidos sorvos, o fumo do cigarro elevava-se rente ao vidro paulatinamente. Subitamente, soa a campainha, que parecia ecoar pelo compartimento. João volta-se na direcção do som e olha em todo o seu redor, com olhar ausente. A ampla sala quase sem luz tornava-se um pouco sinistra. Os móveis feitos por medida, as paredes vestidas de quadros disputados em hasta pública, o soalho de madeira envernizado, o televisor 70X70, a solidão, o desconforto interior. Dirige-se à porta, pousa o copo na mesinha junto ao sofá de pele negra, força um meio sorriso, abre.- Porquê tanta urgência, João? Já não são horas de andar a fazer visitas... Ias-me acordando os míudos... - profere-lhe Daniel, o seu melhor amigo, quase de um só fôlego.- Antes de mais, entra! Não vais ficar aí especado à porta - retorque-lhe João.Daniel entra e ambos encaminham-se para os dois confortáveis cadeirões junto da vitrina que dava para o exterior. João agarra o copo que ficara para trás, mas não de todo esquecido. Sentam-se. Daniel recusara a bebida oferecida, como se fosse pecado beber àquela hora, na companhia de um amigo. Por sua vez, João enche o resto do seu copo, pensava ele que lhe iria soltar as palavras já escolhidas, engasgadas e aprisionadas à muito, com maior fluidez.- Então explica lá o motivo de tanta pressa João... Se o que tens para dizer hoje não poderia ter ficado para amanhã, aqui estou eu, todo ouvidos... Já agora, porque é que estás quase às escuras?- A luz da cidade e da lua é-me suficiente... - João dá um trago, acende outro cigarro e prossegue. - Não sei como hei-de começar Daniel... tomei uma decisão muito importante...Aquele que o estimava, aguardava espectante o decorrer do discurso.- Sabes, - João titubeava - o meu divórcio e toda aquela azáfama por causa do puto e tantas outras razões... vou-me embora Daniel, estou resoluto, vou-me mesmo embora e deixar tudo...- Então porquê João?.. as coisas lá na empresa nunca te correram tão bem, mormente com esta tua última e condigna promoção... qualquer dia estás no topo junto dos dinossauros, na mesa grande. O nosso mercado está-se a expandir como no tempo dos descobrimentos, os clientes cada vez são mais... eu sei que passaste por um mau bocado... já passou algum tempo, pensei que já fossem águas passadas... já não movem moinhos essas águas...- Águas passadas mas não esquecidas... águas passadas, que pelo contrário, movem moinhos na minha cabeça... - interrompe João, que ouvia o discurso do seu amigo. Olhava-o com uma cara manifestamente desgostosa, amargurada.- É verdade, sabes quem é que perguntou por ti hoje? Aquela loiraça que costuma ir lá às reuniões da mesa grande... grande pedaço de mulher aquele...- Daniel, não é nada disso que estás para aí a falar... não me devo estar a fazer entender, eu vou deixar tudo percebes?... Não é só a empresa, é tudo... mesmo tudo, e para sempre... vou deixar esta vida... - sentia-se alguma disfonia, talvez por causa do álcool.- Vais deixar esta vida?!... que outra tu poderás ter?... És bom naquilo que fazes, não te vejo a trabalhar noutro ramo qualquer... passaste por tanto naquela empresa, nunca foste negligente, sempre foste brioso no trabalho... empenho e dedicação, lembras-te?.. dizias-me isto e eu seguia-te como exemplo... não te esqueças que amanhã é o teu aniversário, vamos fazer um festão, não é todos os dias que se fazem quarenta anos...- Não me estás a perceber Daniel... - João quebra-lhe o discurso, tenta ficar com a palavra. Visto a tentativa sair gorada bebe com maior sofreguidão, os sorvos perderam toda a sua timidez.- Estou a perceber e bem, estou a perceber que tu és um grandessíssimo maluco, e que me fizeste saltar da cama a esta hora da noite, para me dizeres esses disparates... se os outros te ouvissem, rir-se-iam na tua cara... - Daniel levanta-se e dirige-se para a porta. - Até amanhã João... amanhã é outro dia de trabalho e de aniversário, não te vão faltar mimos lá na empresa... talvez a loiraça amanhã apareça por lá...- Daniel!!.. - João chama pelo amigo que se tornara vulto, mas a porta já se tinha interposto entre eles, anulando o chamamento, quase rogo.João erige-se e entrega-se à posição inicial. Acende, não um novo cigarro, mas sim um charuto guardado à muito. Um charuto que recebeu como lembrança, no casamento de um amigo, e que estava guardado para uma ocasião especial. Enche o copo de novamente.O rio lá em baixo continuava no seu curso normal com a maior paz do mundo. A lua, continuava reflectida nas águas e balanceava com as ondas.João dá um último gole, abre uma gaveta que se encontrava à distância de um braço, dá o derradeiro nó na corda e goza de mais alguns minutos de silêncio e reflexão.No dia seguinte, Daniel iria sentir o peso do remorso por não ter dado a devida atenção ao seu amigo e por ter confundido, baralhado, todas as suas palavras. As cores alegres de festa mutar-se-iam no luto da morte solitária, e no cinzeiro, a ponta do charuto que Daniel iria reconhecer.

3 Comments:

At 10:30 PM, Anonymous Anonymous said...

o conceito da história é bom, mas a linguagem não é fluente, não permite que o texto role(como já te disse trinta vezes...). experimenta escrever com uma linguagem mais simples, vais ver que até tu lês o teu texto com mais entusiasmo e fluidez...

Sandrita

 
At 11:33 PM, Anonymous Anonymous said...

o facto de alguem por termo a sua vida e algo muito forte!neste caso o ke quereras dizer e que todos nos,e nao e preciso seguirmos este caso extremo,temos problemas na nossa vida,algo que possamos contar de verdade,de amigos...nao podemos subestimar os problemas dos outros,temos de ajudar quem precisa pois a vida assim devia de ser!diz-se que o mundo e dos fortes mas eu nao concordo com isso!nao a fortes nem fracos mas sim pessoas,vidas,felicidades e infelicidades!ainda bem ke escreveste este "exemplo cronico",e sinal que estas consciente disso,que es um bom amigo!

 
At 5:01 PM, Anonymous Anonymous said...

Um dia também me tentei matar. Ou pelo menos vários me avisaram que o que eu ia fazer era suicídio. Tudo isto se passou quando eu resolvi aceitar um convite de umas trigémias chinesas sem reflexo de vómito(um problema genético) , que eram contorcionistas e engolidoras de espadas no circo Chen, para uma maratona de sexo tântrico. Todos os meus amigos me diziam - "Não te metas nisso, elas são contorcionistas e tu tens a flexibilidade de um tijolo! Ainda acabas aleijado." - disse-me o António, já o Joaquim vociferou - " Tu és mas é maluco! Uma maratona!? Deves pensar que és o António Pinto do sexo, não!? Lembra-te que és mais velocista do que corredor de fundo!" - Não deixava de ter razão o meu amigo Joaquim, eu não era nenhum etíope a nível sexual, de facto tava mais pra Obikwellu.
Mesmo assim lá fui eu, temerário e destemido, não ouvindo os conselhos dos meus amigos! E de facto eles acabaram por ter razão, a morte esteve diante dos meus olhos, e podemos dizer que era suicídio, já que tudo o que fiz era voluntário. Seria mais uma morte assistida do que um suicídio na realidade. Contudo, contrariamente ao que seria de esperar, a causa da minha quase morte não foi a sessão de sexo tântrico com as trigémias orientais, foi sim o facto de o grande mito que rodeia as fêmeas desse povo ser real!
Sim Pedro, é verdade, as chinesas têm a pombinha atravessada!!!!!!!
Eu ia morrendo! Quando vi aquilo. Caí pró lado e desmaiei, nem cheguei à parte do bem-bom.
Quando acordei tava nas urgências do São José, e tinha escapado à morte à tangente. Suspirei fundo e pensei comigo mesmo - "Desta já te safaste! Prá próxima segue os conselhos dos amigos." -
Foi assim que eu quase me suicidei caro Pedro, pelo menos de acordo com o meu ponto de vista.
E agora já sabes, quando te meteres com uma chinesa, prepara-te prá surpresa (até rima!).
Despeço-me com amizade, o teu fã nº 1 - Fernando Aníbal.

 

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