Os óculos escuros e a palavra
Estava acamado há três dias e restrito ao quarto. A temperatura alta do corpo, mais conhecida como febre, tinha descido, como indicava o termómetro. O físico ainda conservava uma moinha, só paliada pelo antigripal. Ainda assim, combalido, tinha conseguido comer uma refeição quase completa à hora do almoço, coisa que nos dias antecedentes não acontecera. Só chás e caldos de galinha passavam na garganta atacada pela maleita. As melhoras eram evidentes. O vírus afrouxava.A tarde ia a metade e os quatro canais da televisão que se encontrava aos pés da cama, nada davam de interessante. A heroína eléctrica não viciava. O zapping era curto, a caixinha não tinha surpresas. Dois deles davam programas concorrentes, de padrões idênticos, para entreter domésticas, reformados e emigrantes de outras paragens e latitudes, saudosos da pátria. Uma espécie de praça das alegrias, num país onde a alegria não é rainha. Num outro, canal deveras mais interessante, dava notícias repetitivamente, em lopping, que à primeira volta estava visto. Assim sendo, dos quatro canais, e à falta de tv por cabo, optei pelo canal que estava a encetar a maratona de novelas brasileiras até ao noticiário das vinte. Mas pelas brasileiras decotadas do que pelas novelas, e talvez pelo peculiar humor destas ficções.
Ainda estive hesitante se escrevia ou não este texto, mas depois pensei que, se o escrevesse, remetia para segundo plano os enredos, as cabalas novelísticas e assim matava o tempo. E foi um pequeno pormenor da ficção que fez com que este espectador mais atento se levantasse do leito carregado de cobertores, para logo tornar a ele com o portátil, que nestas alturas de saúde fragilizada, de limitação, é de grande utilidade. Sigamos.
Numa cena da novela, o homem que era marinheiro, diz para a mulher que tinha sonhado com ela, que o idílio tinha sido maravilhoso, sensual, que se passava num lugar lindo, e que tinha de a levar lá um dia. Depois destes dizeres, quase se beijaram, não fosse a filha da mulher chegar para tomar o café da manhã, como dizem os brasucas. Entre nós pequeno almoço. Tem piada, que nas novelas brasileiras o café da manhã é sempre uma farta refeição, uma mesa bem ornamentada, cheia de cores, de frutas e bolos, mas que eles nunca chegam a comer - ou estão atrasados para o trabalho ou para a escola. Se na vida real deste povo o primeiro repasto do dia é tão abundante, então deveria chamar-se grande-almoço.
Seguiu-se outra cena, que nada tem a ver com o texto e, a seguira esta, o casal de quem se fala reaparece no ecrã. O jipe que era conduzido pelo homem marinheiro estaca. O casal sai. Acabavam de chegar ao lugar onde o homem na noite anterior estivera em sonho com a mulher, e onde tinha prometido levá-la. Até aqui, os óculos que ele trazia na cara nada tinham de relevante, apenas um adereço, um papel secundário. Ele diz que o lugar é lindo. Ela corrobora, e pergunta-lhe o porquê de a trazer ali. Ele retorque que tinha de ser um local especial para lhe dizer o que tinha em mente. E o que é?, pergunta-lhe ela. E o actor com o papel bem estudado diz-lhe: AMO-TE. E é aqui que os óculos, que até então não passaram de um adorno, ganharam o papel principal. Ao dizer tal palavra o actor não tirara os óculos da cara, o que para mim é inconcebível, insincero. Tal palavra não se pronuncia, num frente a frente, num momento de romantismo, de olhos tapados por um par de lentes escuras. Se eu fosse o director da novela gritava: COOORTA!!! ESQUECESTE-TE DE TIRAR OS ÓCULOS!!! E OS OLHOS NÃO FALAM?!! NÃO SE EXPRIMEM?!! SÃO NEUTROS?!! VAMOS LÁ REPETIR A CENA!!!
Mas não. Eu não sou o director da patranha, tampouco sou guionista, e a cena não foi regravada.
Entretanto surge outra personagem, que vem estragar o momento bom daqueles dois, uma ex-namorada do homem actor, mas isso agora já não vem ao caso, do que se queria falar já se falou.
Quando acabo de redigir estas palavras, apenas por causa de um importantíssimo detalhe, de uma gafe, de um erro crasso da realização, já tinham dado quatro novelas. A tarde tinha passado. O jornal das vinte começava.


0 Comments:
Post a Comment
<< Home