Atar e desatar
Sentado num banco de jardim desgastado pelas intempéries e abalado de saúde pela malvadez dos catraios, alguém se esbanjava em lágrimas, com os cotovelos apoiados nos joelhos e com a cabeça entre as mãos. Isolado, lá estava o catraio que não tinha mais dos seus cinco, seis anos.Um transeunte achega-se ao menino choramingas, e pergunta-lhe o porquê de ele se encontrar assim. O menino levanta a cabeça e mira, de olhos aquosos, o homem que não usava bengala mas que parecia já ter necessidade dela, e responde-lhe:
- Não sei apertar os atacadores.
O velho varão, que parecia ser a salvação daquela criança, baixa-se custosamente e ata-lhe os atacadores, com dois nós, para que não se desapertassem de novo. O catraio levanta-se, limpa as lágrimas e o ranho do nariz às mangas da camisola, diz um obrigado, e desata a correr dali para fora, de volta às suas brincadeiras.
Essa criança, agora já adulto, desata das suas memórias esse episódio, enquanto com os joelhos no chão de areia dura do parque, aperta os atacadores ao seu rebento.


2 Comments:
pensamentos que se acendem kom candieiros na nossa cabeça,que nos fazem recordar de situaçoes tal kual komo esta, sao bastante engraçados de vermos escritos por outra pessoa,sinonimo de sensibilidade....continua....pois e tao bom lermos coisas assim!
Opá, opá! Isto assim é muito suspeito! As referências implícitas ao processo da Casa Pia, nomeadamente aos raides que o embaixador Ritto efectuava nos parques de Belém causando pânico nas criancinhas, demonstram um profundo conhecimento de causa por parte do autor do post. Pedro, ò muito me engano ou tás aqui, tás a ser chamado a depôr!!
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