Thursday, December 02, 2004

O homem que tinha a mania da arrumação

O homem que tinha a mania da arrumação era um homem como todos os outros. Mas a sua vida era monótona: casa trabalho; trabalho, casa; queria que tudo fosse perfeição. Aquela sua mania da arrumação, quase se tornara numa doença, numa obsessão. Gostava que tudo estivesse no seu devido lugar. À sua mulher tudo aquilo fazia certa confusão.
O homem que tinha a mania da arrumação, chegado a casa, sentava-se no sofá a desfolhar o jornal, mas só depois de se certificar que tudo ocupava o seu preciso lugar. Enquanto isto, a mulher cozinhava, naquele espaço que se tornara o seu mundo. Poucas palavras trocavam durante o jantar, a não ser que ele notasse na mesa alguma coisa que não estivesse a seu agrado, e aí a observação dava-se como certa.
À noite, arrumados os chinelos, direitinhos lado a lado debaixo da cama, e o robe no cabide atrás da porta, deitava-se. Dava um beijo de boas noites à mulher e adormecia num sono arrumado. Aquela vida conjugal tornara-se em duas vidas separadas e diferentes.
Certa noite, a mulher do homem que tinha a mania da arrumação, foi-se deitar mais cedo, à espera do marido, à espera do prazer das carnes. Puramente necessidade física, pois amor já não existia. Antes de ele chegar ao quarto já ela se tinha contorcido de prazer. Deita-se em cima dele e começa a beijar a mulher, na face e por ali abaixo, percorrendo todos os contornos do corpo, há muito não percorridos. Ela geme de ansiedade e tira-lhe a camisa. Ele sai de cima dela e vai pendurar a camisa nas costas da cadeira e deita-se de novo ao lado daquela mulher, toda ela em erupção. Ela saca-lhe as calças e ele dirige-se de novo à cadeira. Dobra as calças minuciosamente e pousa-as no mesmo lugar onde a camisa já descançava. A mulher fervia de corpo e também já de alma. Saturada daquele aquece e arrefece, pensa em segundos em toda a sua vida, salta da cama, veste-se e sai de casa para nunca mais voltar.
Precisava de desarrumar a sua vida, num outro lugar, com outro alguém.
in Jornal Destak
12/Mai./2005

1 Comments:

At 10:08 PM, Anonymous Anonymous said...

Vou aproveitar este espaço que gentilmente me é concedido, não para comentar mais uma das tuas pérolas literárias (e não são pérolas de viveiro, são daquelas que para serem obtidas obrigaram um qualquer mergulhador polinésio a ir ao fundo do mar e a quase perder a vida só para a obter, o que no teu caso valeria a pena!), mas sim para aproveitar para te desejar os mais sinceros e entusiásticos parabéns!
30 anitos não é verdade? Idade linda a que o meu excelso amigo atinge. A idade da afirmação e do reconhecimento, que no teu caso será mais do que merecido.
Contudo, assaltam-me algumas preocupações com a tua entrada nas 3 décadas.
Vejo nos teus textos, uma homossexualidade latente indesmentível, o que 30 anos poderá coincidir com a tua saída do armário. Desculpa lá, mas quem escreve com a tua sensibilidade é rôto! Desde o início dos tempos que o adjectivo sensível aplicado a um homem é sinónimo de paneleirice, e os teus textos são inegavelmente dotados de elevadas doses de sensibilidade.
Outro dos problemas que estão prestes a afectar-te será a impotência. Também se percebe nos teus escritos que a testosterona não abunda pra esses lados, e tu sabes que problemas é que isso trás não é? Ainda bem que a atitude passiva (se é que me entendes caro Pedro), que eu pressinto que passarás a assumir em breve, faça com este mal seja completamente assessório. Para deixares finalmente a mulher que há em ti florir na totalidade, a ausência da velha testo até dá jeito.
Por fim, a probabilidade de ficares calvo é também elevada, mas meu caro Pedro, não temas, é dos carecas que eles gostam mais! E se não tiveres satisfeito com a condição não há problema, porque acho que o uso de volumosas perucas passará a fazer parte da tua indumentária, nem que seja só aos fim-de-semana.
Assim estarás tu a partir de amanhã Pedrito, um ano mais velho, mas com um infinito mundo de novas possibilidades não só diante, mas também atrás de ti.
A publicação dos teus textos em livro também não me parece descabida, e seria certamente da maior justiça.
Por isso senhor Ventura, PARABÉNS! E que contes muitos, para poderes continuar a partilhar connosco a tua grandiosa arte!
Despeço-me com amizade.

 

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