Friday, December 03, 2004

O caracol

Subindo parede acima, o caracol esforçava-se por atingir o topo daquele muro, considerável para ele, diminuto para nós, suportando o carrego da sua casa listrada, matizada a tons de castanho e desprendendo de si o seu rasto viscoso.
O firmamento, aborrecido, pluvioso, soltava grossas gotas e, da janela que dava para o quintal, alguém contemplava o frágil molusco naquela alta escalada. Proporcionalmente, para o animalejo, era como se fosse o monte Evereste, pico do mundo, para o homem.
Cada vez que o observador se abeirava da janela, meias horas depois e até mais, via que todo aquele esforço só resultava em palmo e meio mais para o cimo. As grandes gotas não cessavam de cair da abóbada celeste.
Abstraindo-se daquela pequena curiosidade, o varão regressa aos seus afazeres que, naquela circunstância foi deitar-se ociosamente no sofá com as retinas coladas ao ecrã da televisão, que funcionava como um sonífero visual, não evitando assim, a pacífica soneca. Um som mais estridente emitido da televisão desperta o falso espectador, que retorna ao quadro que era a janela para o exterior para acompanhar o espectáculo que lhe chamava as atenções. As pingas eram menos; todavia, tornavam-se assaz mais pesadas.
Faltava menos de uma mão aberta para o animalejo chegar ao topo daquela árdua ascensão quando uma inopinada gota, grossa e certeira, o atinge na sua carapaça, fazendo-o assim tombar precipitadamente no meio das ervas rasteiras que medravam junto ao mural.
Por vezes é apenas uma gota, qualquer coisa que vá ter peso nas nossas vulnerabilidades, para deitar por terra aquilo que acreditamos estar quase a alcançar...

1 Comments:

At 6:19 PM, Anonymous Anonymous said...

Mas que gloriosa metáfora esta! Arte? Concerteza que sim! No fundo quem é que ainda não se sentiu no papel daquele pequeno molusco que apresenta simetria bilateral, é triploblástico, celomado e tem uns belos protostómios!
Sabes Pedro, por vezes dou comigo a pensar - Quando é que irei conseguir subir o muro!? Já quase que consegui uma ou duas vezes, mas os sacanas dos guardas da prisão do Montijo obrigam-me sempre a descer!
A vida é tramada! Se ao menos não tivesse masturbado loucamente no parque Catarina Eufémia para aquela plateia de septuagenárias com Alzheimer...
Se não fossem os teus posts caro Pedro, à muito que já tinha desistido de tomar a medicação. Apenas te posso trans mitir um sincero obrigado.

 

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