Tuesday, May 30, 2006

Pesadelo

O café, tónico para o começo da manhã, preparava-se no bico do fogão e o odor que a cafeteira lambida pela chama exalava, dispersava-se pelo compartimento onde se preparam e confeccionam os alimentos. As fatias de pão de forma, aprisionadas entre dois termóstatos, estavam prestes a saltar maquinalmente da torradeira, cheias de calor, fulvas, para serem untadas com a manteiga que se iria derreter e deslizar sem grande custo.
O apito da chaleira soa e o homem chega à mesa, com os olhos túmidos de mais uma noite mal dormida.
- Dormiste bem marido? – pergunta-lhe a mulher.
- Não. Tive outra vez aqueles pesadelos.
- Não te senti esta noite.
- Pois é o costume. O alvoroço é dentro da minha cabeça… Quem me dera ter o teu sono.
- Que culpa tenho eu?!
- Tu, nenhuma…
- Tomaste a medicação ontem à noite?
- Tomei, mas parece que os efeitos foram nulos – diz enquanto trinca sem grande apetite uma torrada e dá um trago no café fumegante.
Continua com ar afadigado:
- Enquanto tu dormes pacificamente, eu vejo a escuridão da mata e pretos e camaradas mortos à minha frente. Gente estropiada, o barulho da artilharia, as gentes inocentes que nos obrigaram a matar… E os meus gritos lancinantes e a minha perna separada do meu corpo…
A mulher afaga-lhe o cabelo numa tentativa de conforto.
- Vá, – diz-lhe – acaba de comer e vai até ao jardim jogar às cartas com os teus amigos. Vai-te distrair.
- Amigos foram os que lá ficaram.
O homem finda o pequeno-almoço e a mulher ajuda-o a empurrar a cadeira de rodas até ao elevador que o levaria até ao jardim.

2 Comments:

At 10:47 PM, Blogger MA said...

...é sobre o Sassi Pererê?

 
At 11:13 PM, Blogger Pedro Ventura said...

Quantos Sassi Pererê, não haverão neste país? Não sei porquê mas veio-me à cabeça hoje de manhã enquanto ia no barco. Mas depois também me inspirei numa conversa com um colega (mais velho, claro)de trabalho. Como mandei isto para o Destak, se sair também poderá servir como uma chamada de atenção em relação ao traumatizados de guerra.

Abraço

 

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