Wednesday, June 15, 2005

Os divagadores


Uma nuvem de fumo formava-se e acumulava-se sobre aquelas duas cabeças divagantes. Um pelos cigarros que aspirava paulatinamente, o outro pelo cachimbo que teimava em não se manter em brasa. A algumas horas que se encontravam ali, sem que vivalma entrasse ou saísse do estabelecimento. À excepção daqueles dois varões, o café encontrava-se vazio. Ocupavam a mesa junto à vitrina virada para o exterior. No entanto o campo de visão era condicionado, visto se ter abatido sobre a cidade um nevoeiro tão denso, que a parecia engolir. Como se num repente a cidade perecesse. Inerente àquela imagem, havia alguma melancolia. À falta de clientes e de afazeres, a empregada mantinha-se por detrás do balcão, inerte, estática.
- Está nevoeiro… - diz o homem do cigarro.
- Sim, muito… - responde o outro enquanto tenta reacender o cachimbo.
- Parece que se vai prolongar…
- Certamente, por mais algum tempo.
Há uma breve pausa, um breve silêncio. Não se pode beber e falar em simultâneo. Na rua ouviam-se os carros mas não se visionavam. Só os pontos luminosos dos seus olhos, tentando romper aquela imensidão de nada. Os transeuntes que passavam junto à vitrina eram meros vultos em movimento.
- Está mesmo cerrado este nevoeiro. – comenta o que acaba de amassar mais uma prisca
no cinzeiro que transbordava. Os dois não se olhavam, simplesmente jogavam palavras um ao outro.
- Também as pessoas!.. – retorque o do cachimbo enquanto expele daquela chaminé anéis de fumo, e prossegue – Também as pessoas se cerram sobre si mesmas, tal conchas, em que a palavra é a pérola que não se consegue extrair…
- Nos tempos que correm, cada vez mais. – corrobora o do cigarro, e pergunta: - Isso é de algum poeta?
- Não, não… Até esses caro amigo. – o do cigarro, tenta assimilar o devaneio. – Até esses se cerram. Só assim conseguem poetizar um pouco o mundo. Sofrem e martirizam-se por vezes. O silêncio e a solidão torna-se num mal necessário. Tem de se aproveitar o que de melhor ela nos trás. – O outro abana a cabeça afirmativamente e assume a palavra.
- O nevoeiro é como as pessoas, sim sim… - o do cachimbo olha o do cigarro, aguardando o restante da frase – Por mais que as olhemos não conseguimos ver o que está por detrás delas. A sua essência, meu caro. A sua essência…
- Também é coisa que se prolongará durante toda a existência.

1 Comments:

At 11:52 PM, Anonymous Anonymous said...

"Está mesmo cerrado este nevoeiro. – comenta o que acaba de amassar mais uma prisca
no cinzeiro que transbordava."

Pois é caro Ventura, está mesmo mais cerrado do que se possa pensar, digo eu...tal como já dizia o mestre:

"Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!"

Fernando Pessoa
na "Mensagem"










MA

 

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