Os intelectuais também se apaixonam
- Pois é vizinho, é como lhe digo.- Isso foi há muito tempo?- Há coisa de três semanas…- Quem diria!.. O senhor Anacleto, um homem daquele gabarito… - Eu diria mais, um intelectual! Nunca pensei. Tantos livros e enciclopédias, tantos cursos, um homem com uma cultura tão vasta…- É assim a vida meu caro vizinho, a gente é que pensa que só acontece aos outros, e quando damos conta estão-nos a bater à porta sem aviso. Como é que notou?!- Notei os primeiros sintomas pela música que soava lá em casa. Um homem daqueles, habituado a ouvir música tão erudita agora deu para ouvir músicas românticas. Aqueles duos brasileiros que pululam nas bancas do mercado e outros românticos da nossa praça… É uma tristeza ver assim o senhor Anacleto… E, ao que consta, parece que o senhor Carvalho da livraria lhe vendeu um Kama Sutra ilustrado…- Então a coisa é mesmo séria estou a ver.- Parece que sim. Nunca mais o vimos no café a ler o jornal e a fumar o seu cachimbo, deixou de escrever, de estudar o dicionário… uma tremenda desgraça que se abateu sobre aquela alminha.- E quem é? Sabe-se?- O que corre na boca da vizinhança é o nome de uma tal Carminda, uma funcionária do cartório.- Senhora de bem?- Divorciada, mas uma mulher às direitas, diz-se.- Menos mal. Acha que é para durar?- Já vi muitas paixões acabarem com um final feliz. Mas vamos aguardar…- Sim, que mais se pode fazer?! - Nada vizinho, nada mesmo. Quando ele cair em si, na manhã seguinte estará sentado na mesma mesa do café a ler o jornal e a fumar o seu cachimbo.


2 Comments:
muito mais profundo do que parece...
"...o amor é uma doença, quando nele julgamos vêr a nossa cura"
Ornatos violeta in "O Monstro precisa de amigos"
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- Quer já o café, senhor Anacleto?
- Ainda não Zé, obrigado, estou à espera da Carminda.
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