Monday, February 26, 2007

O assalto


- Isto é um assalto! Passe para cá a massa! - brada o ladrão de pistola em riste apontada à rapariga da caixa número 5, que é a caixa onde se paga até ao máximo de 15 unidades e onde as mulheres grávidas, com um filho ao colo e com valores elevados de miopia, têm prioridade.
- Desculpe, mas nós aqui já não aceitamos assaltos, mas eu vou ligar ao meu chefe para lhe expor o problema. – ouve-se a rapariga a falar para o auscultador - Chefe pode chegar aqui à caixa 5, é que temos aqui um pequeno problema…
- Que se passa? – diz o chefe do outro lado da linha.
-Está aqui um senhor que quer fazer um assalto… Eu já lhe disse que aqui não aceitamos quaisquer tipo de assaltos, mas ele insiste, ameaçando-me com uma arma.
- Vou já para aí!
O seu superior chega num ápice. Entretanto a fila ia aumentando atrás do larápio.
- Boa tarde! Faça o favor de dizer!
-Isto é um assalto! – vocifera o ladrão, enquanto agora aponta a arma ao indivíduo que acaba de chegar e se esforça para fazer um trejeito intimidador.
-Não lhe disseram já que neste estabelecimento não é permitido fazer assaltos? – diz o chefe da menina da caixa número 5.
-Como não?!!
- Sabe, é que no princípio começámos por deixar. Dava-mos o dinheiro e os ladrões lá iam descansados à sua vida. Mas depois começavam a abusar da boa vontade das nossas caixeiras, e cortámos com isso. Ordens superiores. – aponta o dedo para cima.
- Não pode ser?! Isto é um assalto. Passem-me para cá a massa e depressa. Se não chamo o gerente. Não tenho o dia todo… – grita irado o ladrão.
- É isso mesmo que vou fazer - diz o encarregado.
O encarregado convoca o gerente, que chega instantes depois. As pessoas que estavam na fila começavam ficar impacientes, sussurravam, e algumas optaram mesmo por mudar de caixa, apesar das filas maiores.
- Diga lá de sua justiça. – diz o gerente, que indumentava um fato e uma gravata muito horrorosa.
-Isto é um assalto! Passem para cá o caroço! – grita o ladrão. – E isto é para despachar, que ainda quero ver se consigo ir ao dentista tratar de umas cáries que me têm feito passar as noites em branco.
- Pois é meu amigo, acabámos com os assaltos aqui. Quando as pessoas abusam já se sabe. Paga o justo pelo pecador.
- Isto é um assalto, já disse. Ou vou ter de chamar as autoridades?!
- Fica ao seu critério. Se não resolvemos a situação a bem o melhor é mesmo chamar a polícia.
O gerente dirige-se à porta do estabelecimento, onde se encontrava permanentemente um polícia de vigília, para dissolver este tipo de imbróglios.
O homem fardado chega junto à caixa número 5 e pergunta qual é a ocorrência.
- Sr. Guarda… – diz o larápio.
- Sr. Agente – corta o homem do crachá prateado.
- Desculpe! Sr. Agente, o que se passa é que eu quero fazer um assalto e dizem que aqui já não aceitam…
- Pois é meu amigo. Se lhe disseram que aqui já não permitem assaltos, quem sou eu para contrariar as ordens estabelecidas? Eu próprio vim cá a semana passada para fazer um na minha hora de almoço e também não me deixaram. O máximo que o senhor pode fazer, é um direito do cidadão, é dirigir-se àquele balcão e pedir o livro amarelo. E vamos lá a despachar que você já está a provocar um engarrafamento.

- Senão há outro remédio…
O ladrão dirige-se ao balcão, pede o livro de reclamações, mas só depois é que se lembrou que não sabia escrever. Resignado, sai do estabelecimento e senta-se lá fora, de mão estendida, a pedir umas moedas.

2 Comments:

At 6:09 PM, Blogger Pedro Ventura said...

A palavra é sua.

Volte sempre

 
At 4:26 AM, Blogger DoxDoxDox said...

take the money and run, 1969, woody allen.

tb gosto do filme.
=)

 

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